A linguagem dos céus
Imagine a sua vida como uma página em branco. Uma história inteira a ser criada, a partir do momento do céu de nascimento. Mas não a partir do nada. Você nasce dentro de um contexto, familiar e cultural, próprio da época em que vive e das circunstâncias que propiciam a sua formação, que o influenciarão em suas escolhas. Além disso, traz tendências e inclinações inatas, como o resultado de aptidões que desenvolveu em vidas pregressas. Suas facilidades e áreas de desafios e dificuldades estão espelhadas no céu, no momento de seu nascimento. O que um astrólogo faz é decodificar essa linguagem escrita nas estrelas.
De que forma o futuro é escrito nas estrelas? Existe uma predeterminação? E a que ponto? É possível modificar o destino? Ou ele já está pré-traçado quando nascemos?
O nascimento é uma concepção que traz em si um ensaio sobre o exercício do ser e sua finalidade, de se focar em algum objetivo, de ajuste às necessidades do espírito, que é quem dita as escolhas que são trazidas à superfície da vida, para que sejam observáveis como conseqüência do comportamento e de suas escolhas. E isso está refletido em um mapa astral: o seu modo de ser, que já traz esquematizado suas características natais, algumas delas inclinando a desafios; outras, facilitando a fluência de suas qualidades. E o tempo é a linha de percepção em que atravessamos épocas mais propícias para que venham à tona, possibilitando os prognósticos.
Viemos a este mundo com uma expectativa, com um anseio, e com um propósito de nos reajustarmos ao que concluímos que não era o desejado, ou de facilitarmos novas realizações que almejávamos e não concluímos ainda, embora tenhamos necessidade de o fazer. E para isso temos uma nova oportunidade. Uma página novinha em folha para reescrever, com base no aprendizado anterior, para nos encaminharmos à lapidação de nossa forma de ser, como gostaríamos de estar no mundo experimentando uma consciência já mais evoluída. Para tanto, encaramos a recapitulação de várias circunstâncias pretéritas na recriação da nossa existência em novos testes e aprendizados. Nossa individualidade é um veículo da consciência que se movimenta nos acontecimentos, aprendendo a fazer melhor e com menos sofrimento, buscando a realização. Com o tempo e evolução consciente, aprende a se orientar de forma mais madura e a fazer escolhas, tornando-se autor no rumo de sua vida e seu papel no mundo, em um processo contínuo de integração na finalidade de sua existência. Culmina, um dia, no desabrochamento de todas as suas virtudes latentes. Essa etapa está por vir em existências futuras, porque a evolução é lenta e gradual. E requer várias, muitas vidas, para ser atingida.
Voltando às questões iniciais: de que forma o futuro é "escrito nas estrelas"?
Hermes registrou que "assim como é em cima, é embaixo", sobre a conexão íntima que há entre os eventos celestes e seu significado. Estamos em íntima comunhão com o universo e, conforme vibramos, sintonizamos uma faixa do astral. Porém, embora tenhamos em nosso bojo o Todo e as estrelas dentro de nós, nossa forma de comportamento assinala fases do tempo que atravessamos e a experiência individual. E a posição dos planetas quando nascemos marca um modo de interagir e sentir as influências do tempo. Os astros, quando você nasceu, estavam todos em algum signo e formando ângulos significativos entre si, apontando um escopo de funcionamento que dá margem às interpretações sobre suas inclinações e, diante disso, as influências a que está submetido a passar em dado período.
Assim como a Biologia, através da observação da Natureza, observou os ciclos e as interações no ecossistema; a sabedoria dos antigos, transmitida em círculos fechados, via nos astros interações entre os fenômenos celestes e os acontecimentos terrenos. As constelações do zodíaco marcam um pano de fundo fixo por onde transitam os astros errantes, os planetas. E foram se observando histórias entre esses movimentos e os ângulos que os planetas formavam entre si com os acontecimentos terrestres.
Além dos planetas visíveis a olho nu, acrescentaram-se à lista Urano, Netuno e Plutão, descobertos a partir do século XVIII por meio de telescópios. São os deuses da mudança, influenciando épocas e gerações por períodos mais prolongados. Assim, vão assinalando tempos em que as consciências individuais vão se modificando a partir de movimentos coletivos. Há manuais de astrologia que explicam as influências dos astros transitando por signo e formando aspectos harmônicos e desarmônicos entre eles. Mas, para não ficar sem idéia alguma sobre como acontece, apenas a título de ilustração, e bastante grosso modo, quando Urano e Plutão estavam em Virgem, na década de 60, esses agentes de modificação e transformação no signo que rege assuntos relativos à pureza, ordem e higiene com preocupações críticas e tendendo ao perfeccionismo, vieram as primeiras preocupações com a saúde e condições ambientais do planeta em decorrência da poluição industrial. Na década de 70, quando transitavam por Libra, que rege relações matrimoniais, incrementou de forma acentuada o número de separações no casamento. Urano, planeta associado à liberdade e independência, em Escorpião, a partir de 1978, acarretou em maior libertinagem e promiscuidade. Plutão, o planeta que destrói antigas bases, ingressou nesse signo que rege a sexualidade a partir de 1984 e está associado ao aparecimento da AIDS. Já a conjunção Saturno-Urano, que cristaliza novas tendências, em 1988, em Sagitário, signo que rege filosofia e religiosidade, está atrelada ao crescimento da busca por livros de interesse espiritualista, por exemplo.
E conforme esses planetas vão transitando pelo céu, fazendo ângulos significativos com os planetas natais de um mapa individual, vão assinalando épocas em que circunstâncias de vida vão se modificando e marcando fases em nossas vidas. O que fazemos em decorrência disso está fortemente colorido pelos planetas natais em questão, que nos conferem características e qualidades concernentes, mas de forma tão específica em cada caso estudado conforme as peculiaridades de cada mapa e suas singularidades, que nos é possível apontar tempos difíceis e oportunidades e também bastante sobre sua natureza, mas o resultado vai depender de como cada um se prepara para essa condição apontada no tempo. Pois a ninguém cabe dizer como o outro terá de agir, e sim alertar ou refletir sobre o terreno e tendências que se apresentarão. Essa é a arte e o ofício do astrólogo.